segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A Escavação

A Escavação é uma obra do escritor russo Andrei Platónov.
Escrito em 1930 numa URSS dominada e enleada na experiência estalinista A Escavação é um importantíssimo romance distópico que apenas foi conhecido pelo público no final da década de oitenta.
Andrei Platónov, adepto, pelo menos inicial, da experiência soviética, narra os contornos da construção da casa do proletariado num misto de distopia e sátira. As suas personagens, quase disformes, envoltas na experiência colectivista do ensaio socializante da política do Partido Comunista da União Sovietica, são o ponto central do romance. Nota-se claramente, não apenas a utilização de um vocabulário próprio do marxismo-leninismo mas também as contradições internas deste sistema filosófico. O mais evidente é a permanente e contínua desconstrução do individuo e da individualidade.
Sendo possível enquadrar A Escavação dentro do género distópico, este livro é muito mais do que isso. Encontramos, ao longo de todo o livro, as convulsões próprias que emergem da dúvida metódica. Por outro lado a crítica é sempre feita de forma satírica. Muitas personagens – nem todas são suficientemente desenvolvidas, o que julgamos propositado – vivem o estigma da sua insignificância face a uma realidade – nem sempre sensorial – que as transcende em todas as dimensões e as contradições próprias de um sistema filosófico paradoxal.
A Escavação não é um livro fácil e para o compreender na sua plenitude seria preciso conhecer muito profundamente a obra de Andrei Platónov. A nós apenas nos é possível uma leitura à luz do que retiramos de outras leituras do género e de outros autores também eles críticos das experiências colectivistas e em especial do estalinismo. No entanto uma palavra de elogio tem de ser escrita em favor da editora Antígona que tem a coragem de publicar livros que nunca entrarão nos escaparates das grandes livrarias mas que são marcos fundamentais na compreensão da cultura europeia da pós-modernidade. Quanto ao livro, recomendamo-lo apenas aos mais corajosos!

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