quarta-feira, 2 de abril de 2014

A Condição Humana

A Condição Humana é um livro do escritor francês André Malraux e considerada como uma das maiores obras-primas do século XX. 
A Condição Humana é um dos livros mais lidos e comentados do século XX francês. Malraux, escritor e político francês, um dos grandes conhecedores do mundo oriental, produziu, dentro do seu estilo – profundamente filosófico e de uma densidade estrutural tremenda – uma obra fabulosa que tem como pano de fundo a revolução chinesa mas que versa, mais do que qualquer outra coisa, sobre o íntimo mais profundo do ser humano. 
A panóplia de personagens – asiáticos e europeus – oferece ao leitor uma visão possível de uma cidade – Xangai – asiática nos anos trinta. A China do pré II Guerra Mundial estava longe de representar a centralidade política, económica, cultural e militar da actualidade. Dividida, saqueada, miserável mas ciente da sua potencial grandeza a China dos anos trinta representava, para muitos, a riqueza e, para outros tantos, o ecossistema perfeito para a profusão do ideário comunista. 
É neste quadro que o romance decorre e as personagens vão sendo paulatinamente apresentadas. Chineses e europeus numa união em torno de um ideário comum não obstante as marcadas diferenças culturais. 
A Condição Humana é um livro fabuloso. A cena de entrada do romance é de uma intensidade tremenda e merece ser lida e relida quase à exaustão tal é a profundidade a que somos transportados. Esta obra permite-nos viver cada uma das acções e cada uma das reflexões num caso raro de transcendência literária. 
Note-se porém que este é um livro especialmente complexo e que não agradará a todos. A leitura do prefácio – na edição dos Livros do Brasil – da autoria do escritor português Jorge de Sena (um dos maiores da literatura em língua portuguesa do século XX) permite-nos aceder a uma interpretação avalizada e contextualizada da obra de Malraux. A Condição Humana, para os audazes, poderá ser fonte de enorme satisfação.

domingo, 16 de março de 2014

Paris é uma Festa

Paris é uma Festa é um livro do escritor americano Ernest Hemingway.
Todos aqueles que por aqui passam com alguma frequência saberão que Hemingway é dos nossos autores favoritos. O seu estilo é inconfundível. Como bon vivant que há-de ter sido o autor americano viajou, bebeu, amou, conheceu como poucos e as suas obras são – pelo menos daquelas que lemos, o reflexo de tudo isso: o rescaldo da I Guerra Mundial de Adeus às Armas, a Guerra Civil Espanhola de Por Quem os Sinos Dobram, as touradas de Pamplona de O Sol Nasce Sempre (Fiesta) ou a sua vida em Paris durante os anos vinte de Paris é uma Festa.
A escrita de Hemingway, de uma simplicidade fabulosa e profundamente auto-biográfica, tem a capacidade de transportar o autor para bem dentro da narrativa. Por isso, foi de forma extremamente realista que acompanhamos as deambulações do escritor americano na sua passagem pela Cidade Luz.
Em Paris é uma Festa somos confrontados com a centralidade cultural que o capital de França ocupava na primeira metade do século vinte. Escritores, pintores e todo o género de artistas confluíam para Paris, cidade que era o epicentro cultural mundial. Terão sido tempos admiráveis os que resultaram de uma guerra sangrenta e que consagraram o início de um processo de liberalização cultural. A Paris de Hemingway não é uma cidade de deboche e já não representa Belle Époque anterior à I Guerra Mundial mas deixa ainda transparecer o porquê da sua magnificência enquanto centro da cultura e dos seus vícios.
Hemingway foi um escritor sensacional. A vertigem com que viveu a sua vida tê-lo-á transportado longe demais. Mas a sua literatura é realisticamente belíssima e Paris é uma Festa um livro muitíssimo interessante.

domingo, 2 de março de 2014

O Castelo

O Castelo é um livro do escritor checo Franz Kafka.
Há muito tempo que não líamos nada de Kafka. O escritor checo, um dos mais talentosos do século passado, é um dos nossos favoritos. A capacidade de narrar o absurdo e ao mesmo tempo de abordar temáticas de uma profundidade metafórica avassaladora faz de Kafka um dos nomes maiores da literatura.
O Castelo é, à semelhança de O Processo, uma das obras inacabadas do escritor checo. Livro muito complexo e que, em muitos momentos, faz lembrar as obras de Camus pelo absurdo e pelo lugar menor que a narrativa ocupa no texto. A compreensão deste livro, para nós, talvez não tivesse sido possível sem a leitura dos posfácios de Max Brod (amigo de Kafka que irá publicar o seu trabalho) e que constam da edição dos Livros do Brasil que tivemos oportunidade de ler.
O Castelo e O Processo não têm como única semelhança o facto de serem obras inacabadas. Existindo semelhanças podem os livros, ao mesmo tempo, ser as duas faces da mesma moeda. Lendo um e outro fomos confrontados com outras similitudes: a luta contra o desconhecido; o mundo labiríntico em que a personagem principal se vê incluída; o nome da personagem principal. Mas Max Brod também nos chama a atenção para as diferenças: «n’O Processo, o herói é perseguido por invisíveis e misteriosas autoridades, ao passo que n’O Castelo, são essas mesmas autoridades que o repelem. Josef K. esconde-se, foge; K. importuna, ataca». Para Brod, O Processo e O Castelo representam, respectivamente, «as duas formas sob que se nos apresenta a divindade (no sentido da Cabala): o Juízo e a Graça.»
Os livros não são todos iguais e os autores também não. A literatura assume diversas dimensões. Kafka, e as suas obras, (à semelhança de muitos outros autores) não pode ser compreendido sem ser estudado. Só nos poderemos aperceber do génio quando entendemos, em toda a sua plenitude, os significados intrínsecos da mente genial do autor, quando culturalmente somos capazes de entender o curso metafórico da narrativa e a acepção simbólica do discurso.
O Castelo é um livro difícil. Na nossa leitura fomos, à medida que o tempo passava, complicando a sua interpretação na medida em que a prolongámos por demasiado tempo. Kafka é um autor muito complexo. Talvez precisemos de auxílio quando um dia voltarmos à leitura das suas obras. Se não é para compreender o discurso de um autor e o que ele pretende dizer então talvez não valha a pena lermos os seus livros.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

No Princípio Estava o Mar

No Princípio Estava o Mar é um livro do escritor/viajante português Gonçalo Cadilhe.
Quem com maior frequência acompanha o nosso blogue sabe que temos uma especial predilecção pelos livros de Gonçalo Cadilhe o mais famoso dos viajantes portugueses do nosso tempo. Os seus livros são bálsamos que tomamos sempre que as saudades da fuga nos toldam os sentidos e é neles que encontramos momentos de rara alegria e felicidade.
No Princípio Estava o Mar também é um livro de viagens. Também porque é, sobretudo, um livro sobre surf, ondas e mar, temática que desconhecemos quase por completo e que, à partida, não nos faria comprar o livro. Não fosse Gonçalo Cadilhe e não teríamos visitado esta obra.
No Princípio Estava o Mar é uma colectânea de textos publicados pelo Cadilhe ao longo dos últimos quase 20 anos em que se conjugam viagens e surf e nos permite obter – para nós que de maneira nenhuma estamos relacionados com a prática de surf – uma visão pelo íntimo de um surfista. Cadilhe, como sabemos, combina com qualidade a prosa com a poesia pelo que os seus textos emanam sempre uma radiosa – e aparentemente genuína – felicidade. Por isso, foi para nós um prazer acompanhar, com Cadilhe, as melhores ondas do mundo e todo o jargão técnico.
No Princípio Estava o Mar é um livro muito diferente dos restantes que já tivemos oportunidade de ler. Para os surfistas será uma fonte de inesgotável prazer. Para os outros – os que gostam de ler Cadilhe – será uma agradável surpresa.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Inverno do Mundo

O Inverno do Mundo é o segundo livro da trilogia O Século do escritor britânico Ken Follett.
Tivemos, no início do segundo trimestre do ano passado, a oportunidade de ler o primeiro volume desta trilogia: A Queda dos Gigantes. Na altura esse livro não nos deixou a melhor impressão. Embora fosse um romance histórico (género que apreciamos) a verdade é que nos parecia existir alguma falta de cuidado na construção da narrativa. O período escolhido para esta série – o século XX – é relativamente conhecido por muitos leitores o que dificulta a vida de quem escreve. Algumas referências a personagens e factos históricos eram desnecessários.
As coisas não se alteram significativamente neste O Inverno do Mundo. Follett escreve livros como se fossem novelas. Capítulos relativamente curtos quase sempre com a dose certa de suspense. Essa é uma velha fórmula capaz de cativar quase todos os leitores. Connosco não é substancialmente diferente.
Muitas das personagens mantém-se em relação ao primeiro volume. Outras surgem (nomeadamente os descendentes dos primeiros). Cumprem todas um papel central na história do século XX: lutam na Guerra Civil Espanhola e na Segunda Guerra Mundial, assistem à ascensão de Hitler ao poder ou acompanham o desenvolvimento da bomba atómica. Claro que no domínio de um romance tudo é possível mas para leitores mais exigentes a narrativa não é verosímil. Pessoalmente, quando lemos um romance histórico, gostamos que a construção da narrativa pareça provável. Isto não acontece com esta trilogia de Follett.
Note-se que, e apesar de tudo, a leitura até nos pareceu mais agradável do que a do primeiro livro. As personagens são interessantes e ficámos interessados no desenrolar dos acontecimentos. Ademais, nem sempre se nota o preconceito moral do autor na discrição dos factos que norteiam a história do século XX.
O Inverno do Mundo não é um livro extraordinário. No entanto, se não partirmos com grandes expectativas, torna-se uma leitura leve e agravável que permite passar bons momentos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Viagens e Outras Viagens

Viagens e Outras Viagens é um livro do escritor italiano Antonio Tabucchi.
Não obstante o facto de ter nascido em Itália, Tabucchi está indelevelmente marcado por Portugal, não apenas por ter vivido no nosso país e de aqui ter constituído família, mas também por ter sido um dos grandes conhecedores da literatura portuguesa e em especial de Fernando Pessoa.
Não conhecemos a extensa obra de Tabucchi que vai desde os contos ao romance, passando pelo teatro e pela ficção e foi com grande surpresa que encontrámos este Viagens e Outras Viagens e que nos sentimos cativados desde a primeira página.
Este é, como o próprio nome indica, um livro de viagens. No entanto, e ao contrário do que é possível encontrar em tanta literatura deste género que tem sido publicada em Portugal nos últimos anos (felizmente) esta obra de Tabucchi é bastante diferente na medida em que reúne pequeníssimos artigos (ou talvez mesmo apenas meros apontamentos) sobre um conjunto muito significativo de viagens que o autor foi fazendo ao longo da sua muito preenchida vida e das relações este encontrava com fragmentos ou textos completos dos mais variados autores da literatura universal. É neste particular (na inspiração literária, na invasão de textos alheios) que Tabucchi nos transporta num fabuloso itinerário que desejamos nunca acabar.
O escritor italiano escrevia com uma tranquilidade melódica e a simplicidade das suas ideias e a clareza do seu pensamento conquista-nos e completa-nos com uma profundidade dolorosa mas ao mesmo tempo intrinsecamente doce.
Viagens e Outras Viagens é um livro extraordinário que merece ser conhecido e lido por todos aqueles que gostam da melhor literatura. Já quanto a Tabucchi: é para regressar à sua arte o quanto antes.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Orlando

Orlando é um magnífico livro da escritora britânica Virginia Woolf.
Publicado pela primeira vez em 1928, Orlando é um extraordinário livro e é, de acordo com os críticos, uma semi-biografia inspirado numa amiga de Virginia Woolf, Vita Sackville-West.
Orlando, na sua duplicidade sexual – homem e mulher –, é uma personagem fascinante que Virginia Woolf nos biografa ao longo dos seus 350 anos e que acompanha as idades moderna e contemporânea inglesa. As suas aventuras, os seus amores, as suas dúvidas e ensejos são objecto de uma séria mas ao mesmo tempo divertida narrativa que nos prende desde a primeira página.
Virginia Woolf, dotada de uma imensa capacidade de bem escrever, transporta-nos para um mundo onde o real se confunde com o mágico e onde a penumbra dos duplos sentidos não ofusca o brilhantismo da prosa nem a profundidade que se encontra nas sumulas verdadeiramente filosóficas que cotejam todo o livro.
Orlando é uma obra fantástica e tem sido objecto dos mais variados projectos interpretativos desde a sua publicação uma vez que é, em muitos momentos e até de forma global, de leitura dúbia, não apenas pela ambiguidade em relação ao género da personagem principal mas também devido ao facto de ser de difícil enquadrar cronologicamente. Não obstante, os obstáculos não são inultrapassáveis e qualquer leitor poderá beneficiar, mais do que não seja, da beleza da escrita da autora.
Orlando é um enormíssimo livro de uma das mais relevantes escritoras do século XX e que merece, e muito, ser lido e relido.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O Grande Bazar Ferroviário

O Grande Bazar Ferroviário é um livro do escritor americano Paul Theroux, um dos mais relevantes autores de livros de viagem do século passado.
Somos, como se pode verificar através de uma pesquisa pelos livros aqui analisados, grandes fãs de literatura de viagens. Muito mais do que livros que nos indicam hotéis ou praias de sonho interessamo-nos pelas viagens que descrevem os ambientes e nos revelam as pessoas, ou seja, o lado mais intimo (dentro do possível) que os viajantes têm para nos revelar.
Paul Theroux é um dos grandes escritores de viagens do século XX e as suas obras são algumas das mais lidas dentro desta categoria. Theroux é um escritor de renome não se tendo cingido a este género.
O Grande Bazar Ferroviário narra uma viagem de comboios de Londres a Londres mas com passagem em Istambul, Paquistão, Camboja, Japão ou União Soviética e em comboios tão famosos como o Expresso do Oriente, o Expresso da Noite ou o Transiberiano, comboios e viagens que fazem parte do imaginário de todos aqueles que gostam de viajar neste meio de transporte e que reconhecem as vantagens do mesmo.
O Grande Bazar Ferroviário é um livro fascinante que nos permite ter uma ideia complementar do continente asiático da década de setenta não obstante o facto de o autor não ter tido autorização para passar por alguns países emblemáticos. O confronto existente entre os comboios de locais como a Tailândia ou o Vietname e os japoneses e europeus auxilia-nos no processo de compreensão das diferenças económicas e culturais entre povos que partilham a grande eurásia mas que têm da sociedade ideias bem diferentes. Ademais, Theroux apresenta-nos ainda um conjunto interessantíssimo de personagens com quem partilha percalços, aventuras e sorrisos e que são, indiscutivelmente, o epicentro desta obra.
O Grande Bazar Ferroviário é um grande livro de viagens e que apaixonará, certamente, todos aqueles que gostam deste género. Dentro da categoria – e embora não seja um dos nossos favoritos – é um excelente exemplo!

domingo, 29 de dezembro de 2013

Martin Eden

Martin Eden é um livro do escritor americano Jack London, um dos mais brilhantes autores do século XX.
Jack London, escritor que desconhecíamos, apresenta-se com este Martim Eden (romance autobiográfico) como uma estrela verdadeiramente brilhante. A personagem principal (que dá título ao livro) é um jovem ambicioso, trabalhador, tenaz e profundamente ingénuo. É, precisamente a sua ingenuidade, que faz desta uma obra verdadeiramente admirável.
Os estudiosos de London e da sua obra entendem que Martim Eden representa a figura intelectual do seu criador e vêm nesta obra uma recriação autobiográfica. No entanto, vêm mais do que isso porque entendem, ao mesmo tempo, que Martim Eden um ataque à burguesia e aos valores do individualismo não obstante o facto de reconhecerem que o curso da narrativa possa propiciar leituras diferentes.
Jack London escrevia deliciosamente. É interessante verificar como o autor nos prende desde a primeira à última página e como nos faz apaixonar pelo herói. Mas o livro é muito mais do que isso na medida em que está repleto de rastilhos que permitem compreender muito daquelas que eram as discussões de natureza cultural/filosófica da transição entre oitocentos e novecentos. Em alguns momentos – e embora duvidemos que essa fosse a intenção do autor – a personagem principal assume laivos de verdadeiro pedantismo intelectual à medida que se vai sentindo cada vez mais só face a um talento não reconhecido pelos cânones de uma intelectualidade que o mesmo considera bacoca e ultrapassada e que se limitava à repetição exaustiva de lugares-comuns e ideias vazias.
Martim Eden é uma obra admirável de um autor de excepção. Não obstante o facto de o autor estar bem traduzido pela Antígona a verdade é que estamos em crer que o seu talento ainda é por muitos completamente ignorado. Este livro é de leitura muito recomendada e oferece a promessa (que se vai concretizando ao longo da obra) de tempo muito bem passado!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde

O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é uma obra do escritor escocês Robert Louis Stevenson e uma das mais conhecidas histórias publicadas nos últimos 200 anos.
Stevenson, um dos mais relevantes escritores de língua inglesa do século XIX, escreveu esta obra-prima da literatura oitocentista de uma penada. Na multiplicidade de leituras que este livro anuncia e permite – não obstante o facto de se perlongar por pouco mais de 100 páginas, encontra-se a dicotomia bem/mal mas também a ideia de que nenhum homem é suficientemente perfeito.
O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que tem sido objecto de diversas reinterpretações e adaptações cinematográficas, é um livro especialmente bem escrito e imaginado. O homem virtuoso que se opõe ao monstro, a bondade contra a tirania de espírito ou a certeza de que a perfeição não existe, são algumas das leituras suscitadas por este livro.
O Estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde é um grande livro e por isso se compreende e justifica que continue a ser lido tantos anos após a sua publicação original. O seu conteúdo faz hoje parte da cultura ocidental. É uma obra a não perder!

sábado, 2 de novembro de 2013

As Ilhas Encantadas

As Ilhas Encantadas é um pequeno livro do escritor norte-americano Herman Melville, célebre autor de Moby Dick.
As Ilhas Encantadas foi um livro publicado inicialmente em 1854 sob o pseudónimo de Salvator R. Tarnmoor. Através de um conjunto de pequenos textos faz-se uma narração sobre algumas das principais características do conjunto de ilhas da Galápagos num tom em que quase sempre colide a tristeza quase lunar das descrições com o mistério do vazio. Paralelamente às descrições são ainda narradas diversas histórias de habitantes ou ocupantes das ilhas e das características especiais das suas personalidades.
Melville, cuja obra desconhecíamos por completo, pareceu-nos ser um escritor de boa pena. O seu estilo, de uma simplicidade bem trabalhada, permite acompanhar com relativa alegria e vontade a história, ainda que na verdade este livro não seja um romance.
As Ilhas Encantadas são uma obra simpática sem tal signifique deslumbrante. No entanto, as boas características da escrita de Melville deixam antever que algumas das suas obras mais conhecidas possam ser mais interessantes. Sem maravilhar, As Ilhas Encantadas não deixam de ser um bom livro.

domingo, 27 de outubro de 2013

A Morte em Veneza

A Morte em Veneza é uma obra do escritor alemão e vencedor do Prémio Nobel da Literatura Thomas Mann.
A escrita de Mann é prodigiosa pela elegância conferida a cada uma das frases. As palavras, escolhidas criteriosamente, adquirem uma beleza extrema e uma proporcionalidade perfeita.
A Morte em Veneza é um livro curto e incisivo que, decorrendo (em grande parte) em Veneza, poderia ter por objecto físico uma miríade de outras cidades em cujo valor estético se sobrepusesse à racionalidade prática.
Nesta obra conta-se a história de Aschenbach, um escritor alemão consagrado que procura descanso em Veneza. Os factos que permitem construir a narrativa são de somenos porque o objecto da obra se centra numa reflexão sobre o belo e a situação moral do artista. Especial relevo para o facto de Aschenbach, enquanto artista, criador, procurar a sua inspiração numa musa que no caso em concreto se consubstancia na figura de um adolescente polaco chamado Tadzio. A estranha e perversa paixão de um homem maduro por um adolescente (que nunca se materializa) é o fio condutor que permite introduzir as profundas reflexões sobre a beleza que encontram as suas origens na arte grega e na filosofia platónica.
A Morte em Veneza é um grande livro. Não obstante o facto de a história ser um mero instrumento para as meditações de cariz filosófico a excelência da escrita de Mann é um perfume que se prolonga muito para além das curtas páginas deste livro.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Literatura Nazi nas Américas

A Literatura Nazi nas Américas é um livro do escritor chileno Roberto Bolaño.
Bolaño, cujo nome ressoa profundamente na literatura da actualidade (sobretudo depois do sucesso de 2666), era um escritor grandemente marcado pelas circunstâncias em que cresceu e se desenvolveu. À semelhança de outros escritores chilenos (afectos aos partidos de inspiração marxista-leninista) foi profundamente marcado pelo regime de Salvador Allende e pela ditadura de Augusto Pinochet.
A Literatura Nazi nas Américas sofre, no nosso entendimento, dessas influências. Sendo um livro marcado por esse facto não deixa de constituir uma obra muito original e interessante de seguir. A ideia de traçar o perfil bibliográfico de escritores sul-americanos apoiantes do ideário nazi está muitíssimo bem construída e desenvolvida. As personagens, embora inventadas, são inspiradas em individualidades reais e são o reflexo de uma visão sobre o totalitarismo nazi. Apesar do quadro negro em que são pintadas estas figuras não são o mero fruto de uma visão maniqueísta sobre o mundo mas o arquétipo representativos da realidade.
A Literatura Nazi nas Américas é um óptimo e singular livro que desenvolve uma ideia excepcional e é sem dúvida uma obra a ler.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Ano da Morte de Ricardo Reis

O Ano da Morte de Ricardo Reis é uma obra do escritor português José Saramago.
Este romance, cuja primeira edição data de 1984, é uma original obra inspirada (e tendo como personagem principal) um dos heterónimos de Fernando Pessoa, um dos mais fascinantes escritores da língua portuguesa.
José Saramago foi um escritor com uma imaginação particularmente rica. Muitas das suas obras são a sua versão de temas clássicos da literatura contemporânea mas outras têm um traço que lhes confere verdadeira singularidade. É o que se passa com este romance. Ricardo Reis, vindo do Brasil, chega a Portugal pouco tempo depois da morte de Fernando Pessoa e com este mantém um conjunto de conversas até ao desaparecimento final de ambos.
Para além da singularidade própria desta obra é também particularmente interessante a forma como Saramago conseguiu introduzir a baixa lisboeta neste texto (de forma sempre sugestiva) bem como a maneira como trata alguns dos mais importantes problemas políticos da década de trinta, desde a guerra civil espanhola ao consolidar do salazarismo em Portugal.
Não obstante as leituras políticas (que o próprio Saramago foi salientando e enaltecendo em várias publicações posteriores à primeira edição da obra), encontramos também um dos temas favoritos do escritor português, o amor. Neste livro, numa dupla acepção: um amor físico, ou carnal, que se concretiza e desenvolve; um amor visceral, profundo mas levemente correspondido.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um livro menos fácil do que uma leitura superficial pode aparentar. Compreender esta obra de Saramago significa ao mesmo tempo conhecer a obra de Fernando Pessoa (através do seu heterónimo) e as especificidades próprias de um espírito superior. Saramago não se limita a utilizar o trabalho de Pessoa, reinterpreta-o e reinventa-o. Daí a profusão de estudos e artigos publicados sobre esta obra.
O Ano da Morte de Ricardo Reis é um grande livro, dos melhores que tivemos oportunidade de ler até hoje da autoria de José Saramago. A sua leitura pode não só propiciar um gozo tremendo através de uma narrativa que nos prende mas também o privilégio de sabermos estar a contactar com um génio da literatura mundial. Sem dúvida a ler!

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Jerusalém, Ida e Volta

Jerusalém, Ida e Volta é um livro do escritor norte-americano e vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1976 Saul Bellow.
Jerusalém, Ida e Volta faz parte dos excelentes livros de viagem publicados pela editora Tinta da China numa colecção coordenada pelo jornalista Carlos Vaz Marques que prefacia também esta obra do escritor norte-americano de origem judia.
Neste livro Saul Bellow, Nobel da Literatura em 1976, conduz-nos numa viagem por Israel e mais especificamente por Jerusalém. Ao longo das fabulosas quase trezentas páginas, brilhantemente construídas e escritas, Bellow transporta-nos para bem dentro dos meandros das discussões políticas em torno de um dos mais complexos temas da política internacional, o conflito israelo-árabe.
O tema, abordado tendo em consideração o contexto temporal da viagem (o livro é escrito em meados dos anos 70), é prolixo em divergências interpretativas e não é acessível para quem não domina o assunto. Não deixa, porém, de ser interessante o método de escrita, fundado nos encontros e entrevistas do autor a personalidades distintas e fundamentais para a compreensão das práticas diplomáticas e das opções políticas.
Bellow pareceu-nos um grande escritor não obstante o facto de não ser este o melhor livro para apurar da totalidade das suas qualidades literárias. Ainda assim o traço simples mas perfumado que vamos encontrando ao longo da obra é auspicioso.
Jerusalém, Ida e Volta não é o típico livro de viagens mas é, ao mesmo tempo, um excelente livro sobre política. A fusão destas realidades faz deste uma excelente escolha.